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Crise da Ordem Global

Discurso da Presidente da Comissão Europeia na Conferência de Embaixadores da UE (09-03-2026)

Nota prévia

Este espaço de opinião visa valorizar e promover ações que reforcem e consolidem a União Europeia, quer ao nível institucional quer da sociedade civil.

Tal propósito implica também denunciar e contrariar posições que, no nosso entender, deturpam ou enfraquecem o projeto europeu tal como concebido pelos seus fundadores.

É neste contexto que analisamos as críticas públicas dirigidas ao discurso da Presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, que consideramos infundadas e distorcidas.

Principais ideias do discurso

A Presidente sublinhou que:

• A Europa já não pode ser “guardiã da velha ordem internacional”, num mundo que mudou profundamente. 

• O compromisso com a ONU e com o direito internacional permanece central. 

• A UE continuará a defender uma ordem internacional baseada em regras. 

• Num contexto mais conflituoso, é necessária uma governação global mais eficaz e flexível. 

• A União deve avaliar se os seus mecanismos de decisão reforçam ou limitam a sua credibilidade geopolítica. 

• É necessária uma política externa mais realista e orientada para interesses.

• Impõe-se uma agenda ambiciosa de reformas, incluindo eventuais alterações aos Tratados. 

• O alargamento deve ser catalisador de capacidade de ação. 

• Os próximos cinco anos serão decisivos para o papel da Europa nas próximas décadas. 

• A construção de uma União Europeia da Defesa é prioritária, respeitando a soberania dos Estados-Membros.

Críticas e análise

1. Josep Borrell

Criticou a ideia de obsolescência da ordem internacional e recordou a centralidade do direito internacional nos Tratados.

Análise:

A Presidente não afirmou que a ordem internacional se tornou obsoleta. Referiu, com realismo, que a UE não pode ser “guardiã” de uma ordem que já não existe.

O termo “guardiã” implica capacidade efetiva de preservar e proteger — algo que, no atual contexto geopolítico, a UE ainda não reúne plenamente.

Isto não põe em causa o compromisso europeu com o direito internacional, reiterado várias vezes no discurso.

Conclusão: a crítica assenta numa interpretação incorreta das palavras proferidas.


2. Gérard Araud

Acusou a Presidente de excesso de competências e de agir como chefe de Estado, além de classificar a sua posição como alinhada com a Alemanha.

Análise:

As objeções anteriores mantêm-se: há uma leitura distorcida do conteúdo.

Quanto à alegada usurpação de funções:

• A Comissão tem competências externas relevantes, incluindo negociação de acordos e representação internacional. 

• O Serviço Europeu de Ação Externa assegura a articulação com a política externa, sob a tutela da Alta Representante, elo de ligação com o Conselho.

A referência a uma “posição alemã” é particularmente grave e desajustada, evocando divisões históricas ultrapassadas pelo próprio projeto europeu — simbolizado por líderes como Helmut Kohl e François Mitterrand.


3. Pedro Sánchez

Defendeu que o essencial é evitar a desordem mundial e reafirmou uma posição de “não à guerra”.

Análise:

A realidade já evidencia uma transição para uma ordem internacional mais instável.

A posição apresentada parece sobretudo orientada para consumo político interno.

A UE não promove conflitos; pelo contrário, tem desempenhado um papel ativo em processos diplomáticos e negociais.

Conclusão

As críticas analisadas revelam leituras parciais e, em alguns casos, politicamente enviesadas do discurso da Presidente.

Em vez de contribuírem para um debate construtivo, fragilizam a compreensão pública de um momento crítico para a União Europeia.

Voltaremos a este assunto em "Geopolítica e Ordem Global".

Nota final: competências da Presidente da Comissão.

Importa recordar que:

• Define as orientações políticas e a agenda estratégica da Comissão. 

• Lidera a iniciativa legislativa europeia. 

• Representa a UE externamente e participa na negociação de acordos internacionais. 

• Atua em coordenação com o Serviço Europeu de Ação Externa e organizações internacionais (ONU, OCDE, G7, G20). 

• Exerce influência relevante na política externa da Comissão, embora partilhada com o Conselho e o Parlamento.




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